Época nova, vícios antigos

O Futebol Clube do Porto iniciou hoje a preparação para a nova temporada. Este texto, e ao contrário do que seria expectável, não se debruçará sobre a equipa principal, mas sim sobre a equipa B. Discretamente, sem qualquer anúncio formal, surgiram no primeiro dia 3 reforços para a equipa
liderada por Luís Castro. Um jovem vindo da Académica, António Xavier, cuja contratação já era falada há alguns meses e dois miúdos brasileiros, Danilo e Galeno, provenientes de um clube da terceira divisão do Brasil, o Grémio Anápolis.

Estes dois brasileiros são mais dois a juntar a uma imensidão de jovens vindos do país-irmão, e que, invariavelmente, passam com pouco relevo na nossa equipa B. De entre alguns com um mínimo destaque, casos de Sebá, Dellatorre ou Rodrigo (o primeiro a ficar mais do que uma temporada), há outros dos quais a maioria dos adeptos nunca terá ouvido falar ou já nem se lembra que existem, casos de Victor Luís, Diogo Mateus, Enrick Santos e os dois Andersons, fora os que passaram umas férias na equipa junior. O que é evidente é que esta política não tem tido resultados. Nenhum dos jogadores contratados nestas condições tem mostrado talento para um dia ser jogador da equipa principal e alguns deles nem para jogar na equipa B têm mostrado capacidades.

Não conheço os dois atletas agora contratados. Espero que sejam dois craques. Seria sinal que se tinha, finalmente, acertado. À 10ª tentativa, já não era sem tempo.

Por fim, convém verificar que tipo de clube é o Grémio Anápolis. É um clube recente, da terceira divisão brasileira, que tem sido um viveiro de jogadores para vários clubes brasileiros. Curiosamente, o dono do clube chama-se António Teixeira. Esse mesmo, o empresário que aconselhou o Porto a renovar com o atleta André Silva e ganhou uma fortuna com isso.

40 milhões de impostos

Na entrevista de segunda-feira passada ao Porto Canal, o presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa declarou que o clube, no ano de 2015 pagou cerca de 40 milhões de impostos e, de acordo com os dados publicados hoje num comunicado no site do clube, não mentiu. O Porto efectivamente teve de transferir para os cofres do Estado exactamente 40.907.899,99 euros, distribuídos da seguinte forma:

IRS: 28.344.438,54 euros
IRC (Pagamento Especial por Conta): 151.977,57
IRC (Pagamento por Conta): 37.710.00
IRC (Autoliquidação): 1.283.385,90
Segurança Social empresa: 5.682.362,67
Segurança Social trabalhador: 2.159.005,67
IVA: 3.249.019,64 (saldo entre IVA liquidado e IVA dedutível, logo encargo fiscal do FC Porto)

O referido comunicado surgiu em resposta a um pertinente comentário do ex-administrador Angelino Ferreira que dizia que parte substancial desses impostos eram pagos em substituição de terceiros e que, portanto, não eram custo do clube. E, pasme-se, também não mentiu.

A única coisa errada nisto tudo são as esfarrapadas desculpas inscritas no comunicado para atacar os comentários de Angelino Ferreira. Vejamos, o Porto efectivamente pagou os 40 milhões. Pinto da Costa falou a verdade. O dinheiro saiu dos cofres do clube e entrou nos do Estado. Facto. Mas a verdade é que, muitos desses impostos eram devidos por terceiros e, nalguns, o Porto até os cobra a terceiros para os posteriormente entregar ao Estado.

Vamos por partes: a maior fatia do bolo é o IRS. Arroga-se quem escreveu o comunicado de dizer que o IRS é custo do clube. Independentemente da desculpa dada, não cabe na cabeça de ninguém assumir que um imposto que se chama Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares incida sobre uma pessoa colectiva. Se o Porto opta por assumir o risco de variações fiscais ao garantir um rendimento líquido aos seus colaboradores, o problema é seu. Não é por isso que o imposto passa a incidir sobre o clube. O mesmo para a Segurança Social da parte do trabalhador.

Relativamente ao IVA a desculpa é ainda mais esfarrapada. O IVA, como Angelino Ferreira bem disse é um imposto neutro para as empresas. No fundo, e de forma simplificada, as empresas têm direito a recuperar o IVA que pagam a terceiros e têm de entregar o IVA que cobram aos seus clientes. No fundo, o IVA que o Porto entrega ao Estado é aquele IVA que nós, humildes adeptos e sócios pagamos de cada vez que adquirimos um bilhete ou um produto nas lojas do clube, ou que os patrocinadores pagam ao Porto de cada que o clube lhes factura os patrocínios. Há apenas duas excepções genéricas a esta regra: as entidades sem fins lucrativos, caso do clube, não podem recuperar o IVA que pagam aos seus fornecedores, mas todos sabemos que o grosso do imposto se deve à actividade da SAD, e há alguns encargos cujo IVA também não é recuperável. Para além da gasolina, incluem-se aqui os bens de luxo, como viaturas ligeiras de passageiros, tabaco, álcool, barcos ou aviões, etc. Se porventura alguém no Porto considera que anda a suportar muito IVA, talvez seja boa ideia rever a forma como anda a gastar o dinheiro.

Ou seja, e resumidamente, embora o Porto entregue efectivamente muito dinheiro ao Estado, como disse Pinto da Costa, a maior parte não é um encargo seu, mas sim de terceiros, como afirmou Angelino Ferreira. No fundo, o que era desejável era que o Porto se deixasse de discussões imbecis e estéreis e se preocupasse com os verdadeiros inimigos do clube, que não são os sócios nem os seus adeptos.

Por fim, deixo uma dica, quando o clube se desejar queixar dos impostos que paga, eu deixo aqui um conjunto deles que foram ignorados no comunicado (o montante será necessariamente menor, mas são efectivamente gasto do clube), e que, em grande parte incidirão sobre o clube e a SAD: Imposto do selo, IMI, Imposto Único de Circulação ou imposto sobre os produtos petrolíferos. Para que da próxima o trabalho seja melhor feito.

Democracia eleitoral

Decorreu ontem mais um acto eleitoral do Futebol Clube do Porto. A lista única foi, obviamente, legitimada nas urnas, num acto eleitoral que decorreu de forma ordeira. No entanto, há alguns factos que merecem destaque.

Desde logo, o resultado. Pinto da Costa teve a votação mais baixa desde que foi eleito pela primeira vez, em 1982. Pelo meio, mesmo em eleições com adversários, conseguiu mais que os 79% de ontem. Sintomático do momento em que o clube vive. E que ninguém se acredite na patranha dos votos com mensagens de apoio que serviu de justificação para a elevada percentagem de votos nulos. Se nas anteriores eleições, que decorreram nos mesmos moldes, Pinto da Costa ganhou com 99% dos votos, ninguém se acredita que houve assim tantos sócios que ficaram burros de repente e se puseram a escrever mensagens de apoio, sem saber que isso inutilizava o voto.

Ao fundo uma das mesas onde os sócios podiam decidir o seu voto @OJogo
Depois, a tremenda falta de democracia que marcou todo o acto eleitoral, embora não inviabilize a legitimidade do mesmo. Desde logo, o regulamento eleitoral e os estatutos do clube foram violados durante o dia todo. O voto não foi secreto. Não havia um local resguardado onde os sócios votantes pudessem tomar a sua decisão tranquilamente. Quem não quisesse votar na lista única era forçado a riscar o boletim de voto numas reles mesas de café à vista de toda a gente. Imagine-se que, alguém mal intencionado resolvia "marcar" quem tomasse determinada decisão de voto, fosse votar na lista de Pinto da Costa ou nulo. Podiam ter acontecido situações lamentáveis que, felizmente, não ocorreram.

Seguidamente, tudo foi feito para que os sócios tomassem determinado sentido de voto. Desde as simpáticas e gentis meninas que convidavam os sócios a depositarem de imediato os votos na urna, representando esses boletins votos na lista única, em vez de informarem os eleitores de todas as opções disponíveis, até ao papel azul bem escuro e com brilho dos boletins que dificultou imensamente todas as tentativas de o tornar nulo, até à inexistência de canetas fornecidas pelo clube. Valeu tudo.

Mas pior ainda foi haver indivíduos, com o presidente Pinto da Costa à cabeça que optaram por passar grande parte do seu dia plantados na assembleia de voto. Em lado nenhum, num processo democrático, a assembleia de voto é um local de tertúlia e de convívio. Em países civilizados e democráticos, ninguém, muito menos pessoas das listas candidatas ficam na assembleia de voto a assistir ao processo eleitoral. Não se vê isso em eleições presidenciais, legislativas, autárquicas, referendos, etc. As pessoas votam e saem. Ponto final.

Por fim, e em mais um momento digno de uma democracia à moda da Venezuela ou da União Soviética, fomos presenteados com umas brilhantes declarações do presidente da assembleia eleitoral, Fernando Sardoeira Pinto, filho do histórico presidente da Assembleia-Geral do FC Porto, com o mesmo nome, que se deu ao luxo de alvitrar que votos com a inscrição "Acorda Porto" podiam ser considerados votos de incentivo e considerados como válidos. Isto pressupõe a possibilidade de uma afinação de votos que é vergonhosa e deixaria Hugo Chavez. A propósito, a rua em homenagem ao ditador venezuelano não devia ser na Amadora mas sim nas Antas.