Tic Tac, Tic Tac, o ano está a acabar

Dentro de pouco mais de 24 horas termina oficialmente a época desportiva 2015/16. Isto significa que falta muito pouco tempo para que as contas da temporada também fechem. E o Porto, que tinha um orçamento para cumprir, ainda tem muito que fazer até o conseguir. Até lá, será necessário fazer muitos milhões em mais-valias resultantes da venda de jogadores. O número, ao certo, ninguém fora da SAD sabe, mas serão pelo menos 40, 50 ou 60 milhões. Muito dinheiro.

Se o Porto não vender até amanhã, apresentará mais um prejuízo de dimensões tristemente épicas. As consequências é que serão catastróficas. Com um prejuízo superior a 8 milhões, o Porto não cumprirá o fair-play financeiro e, não o cumprindo, ficará sobre a alçada da UEFA. A punição, algo imprevisível, poderá ir de uma redução do número de jogadores a ser inscritos nas provas europeias até à total suspensão de participação nestas, tal como aconteceu com o Galatasaray.

Amanhã deverá ser, infelizmente, um dia muito animado para os lados do Dragão, a fazer lembrar o último dia do mercado de transferências. Para fazer as dezenas de milhões de mais-valias necessárias, e dado que poucos são os atletas cujo passe nos pertence na totalidade, serão necessárias três ou quatro vendas, a não ser que alguém ofereça 50 milhões por um jovem da nossa formação. Teremos mais um plantel desmantelado. Esperemos que seja o último, ou Pinto da Costa terá mentido na última entrevista que deu.

Independentemente do que suceda amanhã, uma coisa é absolutamente certa. Só chegamos a este ponto devido à gestão financeira ruinosa dos últimos anos, área onde tem grassado a incompetência, o desvario e o clientelismo. Fernando Gomes deveria preocupar-se mais em gerir as finanças da SAD e menos em tratar das finanças de familiares de dirigentes. Ficávamos todos a ganhar. Todos menos os benfiquistas, os sportinguistas e os familiares dos dirigentes.

Época nova, vícios antigos

O Futebol Clube do Porto iniciou hoje a preparação para a nova temporada. Este texto, e ao contrário do que seria expectável, não se debruçará sobre a equipa principal, mas sim sobre a equipa B. Discretamente, sem qualquer anúncio formal, surgiram no primeiro dia 3 reforços para a equipa
liderada por Luís Castro. Um jovem vindo da Académica, António Xavier, cuja contratação já era falada há alguns meses e dois miúdos brasileiros, Danilo e Galeno, provenientes de um clube da terceira divisão do Brasil, o Grémio Anápolis.

Estes dois brasileiros são mais dois a juntar a uma imensidão de jovens vindos do país-irmão, e que, invariavelmente, passam com pouco relevo na nossa equipa B. De entre alguns com um mínimo destaque, casos de Sebá, Dellatorre ou Rodrigo (o primeiro a ficar mais do que uma temporada), há outros dos quais a maioria dos adeptos nunca terá ouvido falar ou já nem se lembra que existem, casos de Victor Luís, Diogo Mateus, Enrick Santos e os dois Andersons, fora os que passaram umas férias na equipa junior. O que é evidente é que esta política não tem tido resultados. Nenhum dos jogadores contratados nestas condições tem mostrado talento para um dia ser jogador da equipa principal e alguns deles nem para jogar na equipa B têm mostrado capacidades.

Não conheço os dois atletas agora contratados. Espero que sejam dois craques. Seria sinal que se tinha, finalmente, acertado. À 10ª tentativa, já não era sem tempo.

Por fim, convém verificar que tipo de clube é o Grémio Anápolis. É um clube recente, da terceira divisão brasileira, que tem sido um viveiro de jogadores para vários clubes brasileiros. Curiosamente, o dono do clube chama-se António Teixeira. Esse mesmo, o empresário que aconselhou o Porto a renovar com o atleta André Silva e ganhou uma fortuna com isso.

40 milhões de impostos

Na entrevista de segunda-feira passada ao Porto Canal, o presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa declarou que o clube, no ano de 2015 pagou cerca de 40 milhões de impostos e, de acordo com os dados publicados hoje num comunicado no site do clube, não mentiu. O Porto efectivamente teve de transferir para os cofres do Estado exactamente 40.907.899,99 euros, distribuídos da seguinte forma:

IRS: 28.344.438,54 euros
IRC (Pagamento Especial por Conta): 151.977,57
IRC (Pagamento por Conta): 37.710.00
IRC (Autoliquidação): 1.283.385,90
Segurança Social empresa: 5.682.362,67
Segurança Social trabalhador: 2.159.005,67
IVA: 3.249.019,64 (saldo entre IVA liquidado e IVA dedutível, logo encargo fiscal do FC Porto)

O referido comunicado surgiu em resposta a um pertinente comentário do ex-administrador Angelino Ferreira que dizia que parte substancial desses impostos eram pagos em substituição de terceiros e que, portanto, não eram custo do clube. E, pasme-se, também não mentiu.

A única coisa errada nisto tudo são as esfarrapadas desculpas inscritas no comunicado para atacar os comentários de Angelino Ferreira. Vejamos, o Porto efectivamente pagou os 40 milhões. Pinto da Costa falou a verdade. O dinheiro saiu dos cofres do clube e entrou nos do Estado. Facto. Mas a verdade é que, muitos desses impostos eram devidos por terceiros e, nalguns, o Porto até os cobra a terceiros para os posteriormente entregar ao Estado.

Vamos por partes: a maior fatia do bolo é o IRS. Arroga-se quem escreveu o comunicado de dizer que o IRS é custo do clube. Independentemente da desculpa dada, não cabe na cabeça de ninguém assumir que um imposto que se chama Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares incida sobre uma pessoa colectiva. Se o Porto opta por assumir o risco de variações fiscais ao garantir um rendimento líquido aos seus colaboradores, o problema é seu. Não é por isso que o imposto passa a incidir sobre o clube. O mesmo para a Segurança Social da parte do trabalhador.

Relativamente ao IVA a desculpa é ainda mais esfarrapada. O IVA, como Angelino Ferreira bem disse é um imposto neutro para as empresas. No fundo, e de forma simplificada, as empresas têm direito a recuperar o IVA que pagam a terceiros e têm de entregar o IVA que cobram aos seus clientes. No fundo, o IVA que o Porto entrega ao Estado é aquele IVA que nós, humildes adeptos e sócios pagamos de cada vez que adquirimos um bilhete ou um produto nas lojas do clube, ou que os patrocinadores pagam ao Porto de cada que o clube lhes factura os patrocínios. Há apenas duas excepções genéricas a esta regra: as entidades sem fins lucrativos, caso do clube, não podem recuperar o IVA que pagam aos seus fornecedores, mas todos sabemos que o grosso do imposto se deve à actividade da SAD, e há alguns encargos cujo IVA também não é recuperável. Para além da gasolina, incluem-se aqui os bens de luxo, como viaturas ligeiras de passageiros, tabaco, álcool, barcos ou aviões, etc. Se porventura alguém no Porto considera que anda a suportar muito IVA, talvez seja boa ideia rever a forma como anda a gastar o dinheiro.

Ou seja, e resumidamente, embora o Porto entregue efectivamente muito dinheiro ao Estado, como disse Pinto da Costa, a maior parte não é um encargo seu, mas sim de terceiros, como afirmou Angelino Ferreira. No fundo, o que era desejável era que o Porto se deixasse de discussões imbecis e estéreis e se preocupasse com os verdadeiros inimigos do clube, que não são os sócios nem os seus adeptos.

Por fim, deixo uma dica, quando o clube se desejar queixar dos impostos que paga, eu deixo aqui um conjunto deles que foram ignorados no comunicado (o montante será necessariamente menor, mas são efectivamente gasto do clube), e que, em grande parte incidirão sobre o clube e a SAD: Imposto do selo, IMI, Imposto Único de Circulação ou imposto sobre os produtos petrolíferos. Para que da próxima o trabalho seja melhor feito.